quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Cenas minhas

Alguma vez se sentiram ostracizados e desintegrados nesta sociedade ? Eu sinto todo o santo dia, mas mesmo assim eu não mudo. Alguma vez sentiram que por optarem por um estilo diferente são olhados de forma diferente e o sexo oposto não vos dá tanta bola ? Eu sinto isso todos os dias quando saio à rua de baggy jeans e t-shirts largas, mas mesmo assim eu não mudo. Alguma vez se sentiram tratados como marginais, ignorantes e incultos só por ouvirem seja lá que tipo de música é que ouvem ? Eu sinto isso sempre que ponho os meus phones nos ouvidos e curto o meu Valete ou o meu Big L, mas mesmo assim eu não mudo. Porque é que eu não mudo ? Já lá chegam.

Hoje decidi falar de algo que sempre esteve presente comigo, algo que penso que ainda me define um pouco e algo que, por muito que quisesse, acho que já não conseguia deixar. Tem as suas desvantagens, é que sabem, nos tempos em que vivemos a imagem não é o mais importante, a imagem é tudo. As pessoas julgam-te sem te conhecerem. Uma coisa é conhecer o estilo, conhecer os gostos e os interesses que sim epá concordo que fazem parte daquilo que uma pessoa é, mas outra coisa são personalidades e isso poucos conhecem mas todos julgam conhecer. Já criaram 1001 estereótipos à minha volta só porque sou um puto de 17 anos da Reboleira que anda de roupa larga e mesmo sendo branco só pára com blacks. Já me chamaram de marginal, de sem futuro, de ovelha negra e por aí fora. Mas eu não sou nada disso, sou de outra espécie. Uma espécie que também é muitas vezes assim adjectivada pelos actos de uns que não sabem distinguir hip-hop de banditismo.

Tentam-me definir constantemente, família, amigos, colegas, compinchas, camaradas, sócios, tropas, chamem -lhes o que quiserem. Mas definir algo tão simples como eu pode virar complicado e complexo. Não confundir aqui ser simples com ser simplório, porque mesmo sendo meio safoda não sou oco nem vazio. Até a minha mãe já me disse que não me percebe e que eu mudei e blá blá blá, a minha família olha-me de forma diferente, mas eu não me vou alongar sobre esses temas.

Quando eu tenho recaídas destas "pressões" que por vezes me criam terceiros ou até mesmo e a as minhas exigências para comigo mesmo, há algo que está sempre lá e algo que já me falhou 1001 vezes mas que me deixou preso o suficiente para que eu não lhe consiga falhar. Confusos ? Eu explico. Imitando mas modificando o primeiro parágrafo, já alguma vez sentiram que eram bons a fazer uma coisa que poucos mais conseguem fazer ? Eu sinto isso cada vez que improviso. Alguma vez sentiram arrepios na espinha pelo apreço que vos é dado ? Eu sinto isso por cada rima que cuspo com a minha crew. Alguma vez sentiram milhares de dúvidas reconfortadas por uma esporádica certeza de que nasceram e vieram a esta Terra para fazer alguma coisa ? Eu sinto isso cada vez que rimo, cada vez que escrevo um verso, cada vez que dou por mim com a minha mente a divagar em rimas e quando no meio de desconcentrações me surgem as punchlines mais épicas. Não gravo músicas nem tenciono gravar, para além de questionar as minhas capacidades enquanto artista não me sentiria bem a explorar e fazer dinheiro de algo que tanto gosto. Não escrevo todos os dias pois se o fizesse nem todas as letras sairiam perfeitas e o meu amor pelo bizzno é demasiado para fazer algo aquém daquilo que sei que são as minhas capacidades, faço-o quando quero e quando estou com vontade pois só assim consigo obter aquele prazer e satisfação de rimar. Mesmo com todas estas condicionantes, sinto-me um rapper.

Posso não sê-lo pelos padrões normais, mas sinto-o. E acreditem quando vos digo que enquanto não improvisarem perante um público cheio de nervosismo e ouvirem aqueles gritos de aprovação, enquanto não chegar aquele tão esperado momento em que sai a rima mais inesperada e o people vai ao rubro, enquanto não lerem algo da vossa própria autoria e se sentirem donos e senhores do Mundo só porque tiveram a capacidade e criatividade de produzir algo com que se identificam e que vos deixa satisfeitos, enfim, enquanto não tiverem o maior dos egotrips numa letra derivado daquele sentimento de antes, vocês nunca vão saber o que é ser rapper. E eu nunca seria o que sou hoje se não tivesse sido, ainda que por momentos, um rapper. Não saberia o que é adrenalina se não fosse rapper.

Portanto obrigado por este dom que me deram e que tantas coisas boas me traz. One luv, Drama

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